quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Mestre Pinho Pedreira - Antonio Guerra Lima

A Tarde/BA 30/01/2014

Advogado e ex-procurador-geral
do Estado da Bahia






Pinho Pedreira, que faleceu, aos 97 anos, em 22 de janeiro último, deixou uma lacuna no Clube Inglês que jamais será preenchida. Na cerimônia de cremação, ao ver Fernando Santana, na tribuna, falando em nome de todos nós, seus amigos, fiquei a imaginar quantas alegrias vivi, ao lado dele, em mais de cinco décadas, no Clube, diariamente, e nas diversas viagens ao exterior, a exemplo de seus 80 anos, que comemoramos em Paris. Antes, Alcino Felizola, Eduardo Marques, Jorge Borba e eu viajamos a Paris a fim de escolher o restaurante, onde seria comemorado, no dia 20 de outubro de 1997, os 80 anos dele. O jantar realizou-se no restaurante La Coupole.

Na hora dos parabéns, o restaurante, repleto de amigos do Clube, apagou as luzes e, em fila, os garçons, o maître à frente, com o bolo nas mãos, encaminharam-se em direção a Pinho, cantando “happy birthday to you”, acompanhados de todos nós e por um grupo de americanos que ali se encontravam. Todos os anos ele comemorava a data com lauto almoço e excelentes vinhos. Mestre Pinho, como o chamávamos, era a memória viva da Bahia e da história do Brasil.

“Mestre, quem disse tal frase ou quem exerceu este ou aquele cargo em tal ano?”. A essas perguntas, ele respondia sem vacilar, imediatamente.

No Clube Inglês, ele determinava o cardápio, a hora em que o almoço das sextas- feiras deveria ser servido, enfim, tudo que se referisse à gastronomia, a orientação era dele, sem contestação, que ninguém se ousaria, uma vez que magister dixit. Sem preocupação com dinheiro, vivia para viver a vida com os prazeres que esta oferecia, porque “matamos o tempo, e o tempo nos enterra” (Machado de Assis).

Formado em Direito em 1938, em Salvador, deixa contribuições significativas na área do Direito do Trabalho, do qual foi um dos estudiosos pioneiros no país, numa trajetória que inclui os 26 anos passados no Ministério Público e que não se encerrou na presidência do Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região. Nonagenário, assumia as atribuições de professor e não deixava de dialogar com ex-alunos e estudantes da pós-graduação da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia.

Quero, porém, evocar o amigo. Foi um grande viajante, capaz de conquistar a amizade de donos de tabernas em Lisboa e um homem de líricas vivências na boêmia da Cidade da Bahia. Nunca se filiou ao Partido Comunista Brasileiro, mas, simpático à causa antifascista, conviveu com Jorge Amado, Giocondo Dias e Armênio Guedes. Durante a Segunda Guerra, participava das reuniões na casa de Giocondo, na Piedade, onde ajudava a organizar comícios e confabulava em defesa da declaração de guerra do Brasil contra o Eixo.

Nos anos 30, foragido da repressão da ditadura de Getúlio Vargas, o então jovem agitador comunista Carlos Lacerda encontrou nele um guia nas noites baianas, geralmente encerradas no mítico Tabaris, na praça Castro Alves.

Para os intelectuais e boêmios, tão meritória quanto a militância antifascista foi a batalha de Pinho Pedreira para salvar do fechamento o bar Anjo Azul, fundado em 1949 por José Pedreira e Carlos Bastos (em pouco tempo, o espaço virara um recanto de escritores, artistas, professores e jornalistas).

Uma tarde, na década de 50, caminhando pela rua do Cabeça, veio a surpresa: uma placa anunciava a venda do bar, que já não pertencia aos fundadores. Soube da falência e decidiu correr a cidade em busca de recursos para ressuscitar o “templo” do existencialismo baiano. Com a ajuda de Virgildal Senna, conseguiu enfim comprar o Anjo Azul e passá-lo a uma nova direção, sem qualquer proveito pessoal, salvo o de frequentador.

Na primeira vez que o vi, Pinho Pedreira possuía a pompa de examinador do vestibular. A partir de 1957, viria a ser meu professor na Faculdade de Direito e, um pouco mais adiante, o amigo permanente no Clube Inglês, sua segunda casa. No Clube, houve lágrimas e brindes em sua memória. Mestre Pinho viveu como se recomendasse apenas os brindes, e agora o relembro em sua cadeira, serenado pelos noturnos de Chopin.

domingo, 26 de janeiro de 2014

ALIVIA, CHEFIA? - Adriana Calcanhoto

O Globo 26/01/2014

Honorável editora deste Segundo Caderno, escrevo para dizer que acho que aquele momento, tão temido, pelo qual qualquer colunista terá sempre que uma hora ou outra passar, me é chegado. Simplesmente não sei o que dizer sobre os últimos 15 dias no Brasil. Desmatamento de madeira nativa para fazer carvão realizado com trabalho infantil escravo dói, parece que essa combinação de palavras machuca a língua portuguesa, só de ser escrita. Para produzir carvão, um veneno para o planeta. Uma praga da qual precisamos nos livrar. A espécie que se vê como a maravilha da criação e que está destruindo o único planeta onde por enquanto pode habitar e o está destruindo. É como se de alguma zona do meu cérebro eu conseguisse ouvir disparar um alarme “não tem registro”.

Investir em combustível fóssil e carvão pensando no futuro me dá a impressão de estar vivendo em tempos medievais, como é possível? Isso é pensar no final do mês, não no futuro dos nossos bisnetos. É um sinal tão inequívoco da natureza, humana, que dá um nó na garganta. Se a governadora do Estado, e do estado do Maranhão, não teve o que dizer sobre os últimos acontecimentos, sendo os últimos acontecimentos de acontecimentos começados em 1966, ou seja, sem qualquer possibilidade de a governadora repassar para o antecessor a responsabilidade, que teria eu, Venerável, a dizer? Sobre a menina que ia para a escola pela primeira vez e foi queimada viva, vítima de cruéis vítimas atiradas, amontoadas em jaulas como as de Pedrinhas ou Porto Alegre. Os detentos precisam fazer rodízio para dormir nas celas hipersuperlotadas, pegam sarna, doenças venéreas, perdem o senso, assistem ao estupro das próprias mulheres, mães de seus filhos, dentro das celas. Assistem à decapitações de outros detentos. Não tenho coragem de comentar, estou muda.


A produção de barris de petróleo só vai aumentar, celebram os números. Um estudo (“National contributions to observed global warming”) apontou que, por causa do desmatamento, o Brasil fica atrás apenas de Estados Unidos, China e Rússia em termos de responsabilidade pelo aumento das temperaturas no planeta, desde o início do século XX. Muito antes do que imaginamos, a Floresta Amazônica será apenas uma floresta de eucaliptos.


Seguimos comendo partículas plásticas que não se dissolvem porque, de tão pequenas, passam pelos filtros com as malhas mais finas. Usadas principalmente pela indústria cosmética, vão parar no mar, e nós comemos esse plástico dentro dos peixes, dos camarões, das lagostas nos salões.


Seedorf foi-se embora do Botafogo, o que posso dizer eu que modifique isso? A partir de agora só usarei aquele manjado e melancólico “já me deu muita alegria”. Alegria que não deu pra sentir nesta semana de imagens de feridos na Síria, de madeira nativa dizimada, de infâncias perdidas, de escravidão, de retrocesso, de jogadas para a plateia. O investimento em energia limpa caiu alarmantes 12% em 2013. Deixou o Ministério da Educação o ministro que no comando da pasta perguntou o que museu tem a ver com educação, não é má notícia, mas, Digníssima, uma vez isso acontecido, o que poderá estar por vir?



Queria, Impecável, poder dizer aos leitores, meus compadres queridos, “vamos até a praia, hoje é domingo, sol de maçarico ou talvez umas pancadas, as amorosas chuvas de verão, escutar a sinfonia das cigarras dando tudo de si, nossa, chega a doer o ouvido. O canto das cigarras não tem o intuito de ser belo, ele apenas é, o que é, é para o que serve. Natural, cheio de nuances, com intervalos e notas estranhos, às vezes metálicos e dissonantes, quando várias cigarras cantam juntas cada qual o seu próprio canto, esquisitos, inconcebíveis na música aprisionada em 12 notas que costumamos ouvir há centenas de anos. Uma maravilha sem igual. Vamos sentar em um banco de praça em Copacabana, vamos passear na Floresta da Tijuca enquanto seu lobo não vem. Mergulhar as retinas em flamboyants esplendorosos, roubar os jambos do vizinho, paquerar as jabuticabeiras carregadas. Vamos desenhar as paredes inteiras da casa da vovó. Vamos pingar sorvete no tapete da sala”, mas, Honorável, não estou mesmo conseguindo. Passo no departamento pessoal amanhã.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Batismo de fogo - José Castello

O Globo - 25/01/2014
 
O ROMANCE DE JAVIER CERCAS TRATA DA CONSTRUÇÃO DOS MITOS, QUE PODEM SER DE MATERIAIS IMPREVISÍVEIS

Contar uma vida, resumi-la, explicá-
la — será isso possível? É o esforço
que faz Ignácio Cañas, o
protagonista de “As leis da fronteira”,
livro do espanhol Javier
Cercas (Globo Livros/ Biblioteca
Azul, tradução de Josely Vianna Baptista). O romance
é narrado como uma série de entrevistas,
não apenas com Cañas, o principal informante.
Pedaços se costuram precariamente. Vozes buscam
um fio que as ligue. Tudo no esforço de dar
vida a Zarco, um marginal cheio de glamour a
quem Cañas conheceu, e de cuja luta insensata
se aproximou, em1978, três anos apenas após a
morte do general Franco.

As aventuras de Zarco, um mito da marginalidade,
se passam em Girona, na Catalunha. Ele é
um “charnego”, apelido dado aos emigrantes
vindos do interior do território. A essa altura, Girona
é uma cidade cercada por um mundo marginal.
Uma fronteira imaginária separa suas duas
partes. Quando conhece Zarco em um fliperama,
Cañas é só um adolescente de classe média,
tímido e inquieto, massacrado pela brutalidade
dos companheiros de escola. Procura um
esconderijo, encontra-o na figura do herói marginal
— repetindo um fascínio pela margem que
marcará parte importante da juventude da segunda
metade do século XX.

Trinta anos depois, um escritor colhe material
para um livro sobre o mito de Zarco. Cañas se
torna seu principal informante. No fliperama
em que ele e seu anti-herói se conheceram, a
máquina de pinball preferida de Cañas era dedicada
ao herói Rocky Balboa. Zarco e a garota, Tere,
o expulsam do jogo. Naquele primeiro gesto
brusco, contudo, surge uma aliança. Passa a frequentar
o Bairro Chinês, que não era exatamente
um reduto da comunidade de migrantes da
China, era mais uma espécie de “boca do lixo”.
Ainda tenta resistir trabalhando numa mercearia,
mas quando dá por si está totalmente envolvido
pelo mundo sujo de Zarco.

“A história que vou lhe contar não é a do Zarco,
mas a de minha relação com o Zarco”, ele adverte
seu entrevistador. Começa a se traçar, assim, um
retrato torto do herói marginal, uma espécie de retrato
lateral, marginal ele também. Javier Cercas, o
escritor real, sabe que também a literatura transcorre
numa oscilação entre o centro e a margem,
entre a verdade oficial e as verdades submersas, e
que é dessa inconstância que
ela tira sua riqueza. Quanto
mais paradoxal, mais inquieta
uma narrativa, mais rica ela será.
Cercas é mestre na arte da
quebra de fronteiras e este romance
é mais uma prova disso.

Conforme se aproxima de Zarco,
Cañas — que em sua entrada
na gangue será apelidado de
Quatro Olhos — passa a sentir
rancor profundo contra os pais.
Renega sua classe social para viver
um sonho — doloroso, mas intenso — de
transfiguração. Sua admiração por Zarco é uma
mistura explosiva de fascínio e dúvida. A gangue
rouba carros, assalta casas vazias, pratica pequenos
furtos. “Ali começou o perigo de verdade”,
Cañas resume. Quando participa pela primeira
vez do roubo de chalé, experimenta seu batismo
de fogo. Queima-se — com entusiasmo e medo,
espanto e excitação — no mundo da margem. Toca
o outro lado. Aquele que não é previsto pelo
script de sua vida de rapaz de classe média. Entende
que entrou em um caminho sem volta.

Os objetos furtados vão para receptadores. Uma
rede sombria passa a envolvê-los. Não usam drogas
pesadas, apenas maconha.
Conservam certos limites que,
no entanto, não servem para garantir
coisa alguma. A seu entrevistador,
30 anos depois, Cañas
nega que Zarco fosse idealizado
e assegura que aceitou dar um
depoimento só para destruir seu
mito. Mas admite que terminou
sendo o primeiro a idealizá-lo.
Quanto mais confessa, quanto
mais abre suas memórias, mais
se afunda nas próprias palavras.
Conhecida como Liang Shan Po — nome tomado
de empréstimo de um seriado de TV, uma versão
oriental de Robin Hood —, a gangue de Zarco está,
sim, desde o início, encoberta por lendas.
Cañas se torna, ele também, mais uma lenda.

Na versão policial, Zarco é não só um dos símbolos
da delinquência juvenil, mas o “viciado oficial”
da Espanha. Já Cañas seria apenas “um
adolescente de classe média dando um passeio
pelo lado selvagem”. Com o avançar das páginas,
o contraste de versões ao mesmo tempo clareia e
borra o retrato de Zarco. Quanto mais a verdade
se adensa, mais ela mostra, mas também mais
esconde. A polícia começou a perseguir a gangue
de Zarco ainda sem saber o que perseguia. A
margem é fluida e obscura, nelas os personagens
surgem de repente e desaparecem logo depois.
Mais complexo que seu anti-herói, Cañas
luta para sobreviver em uma vida dupla, entre a
marginalidade e o convencional, entre o crime e
a lei. Perdido, debatendo-se para cá e para lá,
torna-se um personagem tão rico quanto Zarco.

A gangue é guiada pelo improviso e pelos impulsos
de Zarco — e é isso que traça sua decadência.
Mais tarde, Zarco se tornará um herói da
mídia, assinará biografias e terá até filmes sobre
sua vida. O que nele tanto fascina? Não é a certeza,
mas a incerteza. Como seu anti-herói, também
Cañas é um personagem de alma dividida.
É esta divisão e o abismo que ela descerra que
torna os dois personagens tão fascinantes. Estruturado
como uma busca inconstante, e não
como um romance com início, meio e fim, também
o livro de Javier Cercas guarda o mesmo estilo
escorregadio que marca a vida marginal. O
último golpe da gangue, improvisado e patético,
é um fracasso. Tudo isso, em vez de obscurecer,
engrandece o mito de Zarco e dos seus.

O destino do jovem Cañas será traçado por um
policial, o inspetor Cuenca, e por seu próprio
pai. Um círculo se fecha — ou um futuro imprevisto
se abre. O romance de Cercas trata da construção
dos mitos, que podem ser feitos de materiais
imprevisíveis e representar sentimentos
improváveis. Em nosso mundo cada vez mais caracterizado
pela turbulência e pela mistura, a
margem está, a cada dia, mais quebrada, mais
difusa e mais próxima. Uma pergunta parece definir
nossos dias: “Onde estou?” No fundo, carregamos
a margem dentro do peito como uma espécie
sinistra de destino.

João Paulo - O copo e o vento‏

O copo e o vento

"O que a eleição pode trazer de melhor é a explicitação de projetos divergentes, com defesas consistentes dos dois lados"
 
João Paulo
jpaulocunha.mg@diariosassociados.com.br



Estado de Minas: 25/01/2014 


 

Copo d'água, obra do artista plástico Iran do Espírito Santo, que pode ser vista na Galeria Mata, em Inhotim (Maria Tereza Correia/EM/D.A Press-22/10/08)
Copo d'água, obra do artista plástico Iran do Espírito Santo, que pode ser vista na Galeria Mata, em Inhotim
 “É sempre bom lembrar/ que o copo vazio/ está cheio de ar.” Os versos de inspiração zen-budista da canção de Gilberto Gil parecem sintetizar, muitos anos depois, a situação real do nada sagrado tempo em que vivemos. Enquanto poucos e eloquentes cantam o copo vazio da crise que se avizinha inexoravelmente, a maioria parece bastante otimista, tocada pelo vento seguro, como uma nau de velas pandas.

Em outro contexto, o psicanalista francês Jacques Lacan apelava para a existência de três constituintes do universo psicológico – o real, o simbólico e o imaginário. Não parece ser outra a relação das pessoas com a sociedade e a política. Há o real, dos que vivem o dia a dia; o imaginário, dos que desejam outro cenário; e o simbólico, que pode ser traduzido nas ideologias que de certa forma amparam os dois lados em conflito.

O que a canção e a psicanálise têm a nos dizer, quando se trata de economia e crise, é que sabemos sempre menos do que precisamos. As certezas se mostram a cada dia mais caducas e exigem não apenas abertura para o novo, mas honestidade de propósitos. Algo que é essencial sempre, mas que se torna civilizador quando se entra, como agora, no calor de uma eleição.

O ponto de discordância entre os pessimistas – do meio copo vazio – e os otimistas – do copo meio cheio – é, mais uma vez, a precedência dada à economia quando se discutem divergências políticas. Tudo se passa como se houvesse alguns universais a serem perseguidos (controle da inflação, estabilidade, pleno emprego, crescimento sustentável) e pequenas diferenças na forma de chegar a esses objetivos.

No entanto, a própria colocação do problema já antecipa o sentido do debate. É preciso lembrar sempre que a opinião pública, de certa maneira traduzida no Brasil pela opinião publicada pela chamada grande imprensa, parece ter apenas como norte a defesa dos valores liberais de mercado. Para entrar na roda, é preciso de antemão se localizar entre os “capitalistas modernos”, que pela cartilha da mídia é quase uma redundância. Ainda que falsa em seus fundamentos.

Por isso, o tratamento dado à economia no contexto das disputas políticas precisa ser feito com mais honestidade. Tipo papo reto. Não há consenso, como se propaga, que o melhor receituário é o que incorpora a inflação na meta, câmbio livre e equilíbrio fiscal, com atenção especial ao superávit primário. Essa equação quase sempre desanda para a subida de juros, volatilidade de capitais e garantia do ganho do setor financeiro rentista, mesmo à custa do arrocho do contribuinte.

Trata-se de uma economia ligada a valores que são menos do mercado (uma entidade quase mágica) e mais do capital (que pode ser fetichista, mas não tem nada de irreal). Os chamados fundamentos da economia são, na realidade, uma forma técnica de defesa de uma opção nitidamente política. Além do mais, tal receituário, aplicado por décadas nos países ricos com o lastro das economias dependentes, está fazendo água, com alto grau de desemprego e insegurança social em muitos países da Europa. A ideia de uma social-democracia para poucos não pode mais subsistir num cenário de demanda real de melhoria do padrão de vida para todos.

No lado da economia das pessoas comuns a sensação é outra. Mesmo com a ameaça da inflação como grande atiçador brandido por parte da oposição, a melhoria do padrão de vida é patente. Programas sociais vitoriosos – na área da distribuição de renda, oportunidades na educação e moradia – são traduzidos no dia a dia como novo patamar qualitativo de existência. E, o que é mais significativo, alteram a relação das pessoas com a sociedade e com a autoestima. Há uma postulação de direitos, tomados como naturais e evidentes, que é ainda mais importante que as conquistas meramente materiais.

Se o fato fosse apenas a distinção de projetos para a sociedade brasileira – e é para isso que servem as eleições – tudo estaria no melhor dos mundos. Bastaria apresentar as propostas existentes e dar ao povo liberdade de escolher. No entanto, o que se percebe é um atravessamento moral do debate, como se estivesse em jogo a verdade ou, em outras palavras, o bem contra o mal. Sempre que se descamba para o terreno do moralismo, quem perde primeiro é a política. Uma eleição que resgata a política começa bem. É o que se espera dos próximos lances. Ou então, o que sobra é um misto de descontentamento alienante (“todo político é ladrão”) somado a uma cobrança por eficiência (“padrão Fifa” ou “Primeiro Mundo”).

O projeto liberal, representado pela oposição – e por isso é bom que Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central na gestão de Fernando Henrique Cardoso, esteja sendo apresentado, ainda que informalmente, como economista-orgânico de Aécio Neves, possível candidato do PSDB às eleições presidenciais –, vai na linha da defesa dos chamados fundamentos da economia de mercado. São propostas vindas do setor financeiro, com trânsito privilegiado pelo mercado de capitais, como indica a origem de Fraga.

É isso que a eleição pode trazer de melhor, a explicitação de projetos divergentes, com defesas consistentes dos dois lados: o neodesenvolvimentista, do atual governo; e o neoliberal, das oposições (para ficar mais amplo, é só lembrar que no caso de Eduardo Campos, virtual candidato do PSB, sai Armínio e entra Giannetti da Fonseca na seara da economia, sem mudanças substanciais). É com esses elementos, desdobrados nos debates em propostas concretas, que o eleitor vai ter que se dar para fazer sua opção. Não com a escolha entre Deus e o diabo, entre a mentira e verdade, a modernidade e o atraso. Na vida, como na política, as metáforas são apenas fantasmas.

MAGAZINE CONECTION
No começo da semana, num programa da TV paga, Manhattan Conection (um exemplo antipático de subserviência colonial e intelectual da mídia brasileira, que costuma indicar o melhor pãozinho de NY), a empresária Luzia Trajano, dona de uma rede de lojas de varejo, foi posta na arena dos leões do ultraliberalismo. Em desvantagem numérica – estava sozinha contra um economista e três jornalistas alinhados com a tese do copo vazio –, ela mostrou números, propósitos e ações que fazem a diferença entre a teoria catastrofista e a realidade.

De um lado, a ameaça da bolha; do outro, a celebração do crescimento do emprego e do consumo; um setor defendendo o capital transnacional, a varejista apontando a especificidade do nosso mercado. O programa foi ainda exemplar em outro aspecto, sobre o qual ainda temos que melhorar muito: a capacidade de ouvir o outro. Na arrogância que caracteriza a elite brasileira (da qual a imprensa é um bom sucedâneo), existe sempre a palavra autorizada, que um dia Marilena Chauí nomeou de “discurso competente”. Luzia, na contramão desse jogo de cartas marcadas, levou ao telespectador, além da comunicação fácil e sincera, a sabedoria que faltava a quem sempre se defendeu mais com padrões morais que com a realidade.

Luiza pode ser empresária, mas é mulher, deixa claro que veio de baixo e atua num setor pouco charmoso do mercado (vender papéis podres e carros insustentáveis é mais chique que negociar chapinhas e tanquinhos). Por isso tinha tudo para ser diminuída e tratada como um dinossauro (o jornalista Diogo Mainardi, que mostrou sua ignorância com relação aos números da inadimplência brasileira no comércio, chegou a varticinar a venda do magazine para uma pontocom americana). O resultado, no entanto, como se viu durante a semana nas redes sociais, foi uma empatia dos argumentos da empresária com o sentimento das pessoas.

Essa talvez seja a lição mais importante para quem está preocupado em dar o rumo certo ao debate econômico durante o franco período eleitoral que vivemos. Quem vota não são os colunistas de economia e seus leitores, cada vez mais parcos e desinformados, mas as pessoas comuns. E, por uma regra de mercado, destas que não costumam falhar, geralmente a maioria está certa, já que a inteligência e o bom senso não são atributos de classe. Uma Luzia Trajano vale mais que quatro comentaristas. Com o voto, a lógica é a mesma: a realidade sempre liquida a teoria vazia e cheia de ar.

Livraria Folha seca


Vingança nas redes sociais

Relações efêmeras, expostas como objeto de consumo, geram frustração e ressentimento em jovens incapazes de conviver em igualdade com a diferença e o desejo do outro


Inez Lemos
Inez Lemos é psicanalista. E-mail: inezlemoss@gmail.com.


Estado de Minas: 25/01/2014

 

As relações humanas, inclusive as afetivas, estão sendo mediadas pelas redes sociais, que se tornam também território de represália aos fracassos (Hoang Dinh Nnam/Reuters)
As relações humanas, inclusive as afetivas, estão sendo mediadas pelas redes sociais, que se tornam também território de represália aos fracassos
 Ao escrever sobre relações afetivas contemporâneas, quando a tendência é expressar os sentimentos via ondas eletromagnéticas, o que está em questão é uma profunda mudança na produção da subjetividade – um novo sujeito e uma nova forma de vivenciar as pulsões: amor, ódio, vingança, inveja, ressentimentos. Outrora, ao falarmos de sentimentos, transportávamos o pensamento para um outro lugar, arrastávamos as entranhas para o mundo íntimo. Um mundo que, ao ser acessado, requer um pouco de silêncio e concentração, centrar no que nos causa estranhamento. O silêncio, por sua vez, requer tempo – tempo é a mediação que viabiliza contato com a vida interior. Sem ele dificilmente questionamos o modo de ser e estar no mundo.

Vivemos a mania dos smartphones e tablets. Tornou-se comum entre a moçada agendar as relações afetivas e sexuais on-line. O tempo é o tempo virtual, é nele que se vive, se ama e se tenta resolver os incômodos. A vida íntima, os conflitos, logo é registrada em redes sociais. A questão que destacamos é a qualidade das relações, como os jovens estão elaborando a sexualidade, algo maior que envolve perdas, pernas e corações. Nem todos conseguem desvincular o ato sexual dos sentimentos. Relação implica duas pessoas se envolvendo, trocando profundezas. Intimidade não se resume em tirar a roupa e ir para a cama, mas desnudar, aos poucos, as camadas internas. É quando escolhemos quais as páginas da alma que queremos mostrar ao outro. A vida afetiva exige mergulho nas entranhas. Amar é entranhar, revisitar poços, cavernas e grutas.

Como resistir à efemeridade nas relações, a não adesão à banalidade dos sentimentos? Como expressar o descontentamento com o rumo do mundo, quando tudo se transforma em espetáculo, circo midiático? Uma transa vira notícia no Facebook, a viagem e o carro novo têm que ser postados. Exibimos a fartura, a abundância, a beleza e o sucesso. E como fica a vida quando tudo é precário, fracasso e pobreza? Não seria a violência, a criminalidade e os rolezinhos – o urro que destoa da manada, a boiada que sofre a exclusão? A obsessão em priorizar o consumo – a arrogância fascista de se impor pelo dinheiro define os traços de uma sociedade desigual e injusta. A maioria dos pais está ocupada em tamponar a falta do filho com objetos, máquinas e mimos. Poucos pensam em uma formação humanista, uma outra concepção de mundo. Qual o lugar que queremos que o nosso filho ocupe? O de bem-sucedido, rico, estúpido e machista? Os monstrinhos de hoje serão os bandidos de amanhã. Ou será que julgamos monstros apenas os excluídos, que crescem sendo humilhados, destruídos pela desfaçatez daqueles que se julgam melhores por transitarem em carros importados?

O debate questiona o tempo e seu papel na educação das crianças. A forma como os jovens amam, pensam e circulam pela vida remete à postura dos pais. Família, cidadania, ética. Palavras desgastadas diante da fissura em locupletar. O pai não tem tempo para conversar com o filho, a mãe julga mais importante a academia e o salão de beleza. Tudo é prioritário quando se trata de cumprir com as funções paternas e maternas. Tempo, esse desconhecido quando o assunto é educação de filhos. Contudo, ele é o elemento que possibilita aos pais imprimirem nos filhos a marca, o diferencial de cada família. Como educá-los priorizando experiências em que viceja intimidade, interioridade? Relações sem viço são frouxas e expõem a descrença dos envolvidos na potência dos sentimentos. A qualidade da convivência confere sentido à vida, o fio que une brota de dentro. Dificilmente estabeleceremos relações douradoras apenas por satélites.

Nas redes sociais a comunicação é mecânica, a máquina mediando um espaço coletivo, espaço de pouca elaboração onde o tempo é fruição sem maturação. Tempo imediato e não mediato. A internet é um recurso excelente para trocar visões de mundo, encontro de ideias e debates. A obsessão em registrar intimidades em rede atesta a superficialidade da nova ordem amorosa. O mundo virtual em que os afetos e desafetos são postados lembra o Coliseu romano. No Império Romano, a diversão da plebe era torcer pelos gladiadores. Hoje, a juventude se diverte digladiando uns aos outros na arena virtual. As feras soltam o veneno da inveja, ciúme e ressentimento. O palco cibernético é o escolhido pela moçada – muitas garotas se despem e oferecem aos namorados material para possíveis vinganças.

O Brasil é um dos campeões em usuários de celulares e redes sociais, contudo, os índices não são suficientes em garantir qualidade nos conteúdos das mensagens. Não avançamos na forma de trabalhar os sentimentos danificados. O ressentimento não elaborado transforma-se em vingança – sentimento que nasce do retorno dos desejos vingativos sobre o eu. Ao querer se livrar dos incômodos, agimos sem pensar, sem tentar saídas honrosas. Logo, lançamos sobre o outro a fúria, caldo fermentado na crueldade. Sentimento tóxico que adoece a alma indigente e impiedosa. Destacamos a importância daquele que deseja lançar a espada sobre o seu algoz, de se implicar e analisar o teor da vingança – dívida adiada, acumulada. A vingança é a tentativa de reparar o sentimento de ter sido lesado. Uma reparação fajuta, uma vez que o alívio incide apenas em privar o outro de algo – se eu não a tenho, ele também não a terá.

DESEJO E CONFLITO


O sofrimento, sensação de perda e necessidade de se sentir superior, expõe a frustração de não ser o que gostaríamos de ser – o eu idealizado confrontando com o eu real. Ser amado e aceito é um mecanismo de defesa, idealização de proteção. Fantasia que ameniza a sensação de desamparo e abandono. Dependência garantida. O que está em questão não é o amor que sinto pelo outro, mas a dor que sentirei ao perdê-lo. A propriedade é fantasia de proteção, defesa contra a tragédia do desamparo. Sentir-se amado é deparar com a necessidade de escapar da angústia, do medo e da loucura. A traição é uma forma de fuga, de escapar do que realmente importa – a não consciência de si. É o ato de se excluir de uma determinada situação, um acordo que fazemos com a incapacidade de explorar os conflitos afetivos. Todo desejo é conflitante.

O ato de tentar escapar ileso, de não se implicar, demanda pouco esforço. Atravessar os incômodos é mais difícil que suplantá-los. O desejo de punição exposto na web, a chamada pornografia de vingança, é a versão atualizada da violência de gênero. E deveria contribuir para o debate sobre a forma como os jovens estão sendo educados. Machismo, homofobia e racismo apontam rejeição ao diferente e deflagram uma educação elitista, patrimonialista. Talvez falte às famílias introduzir o debate sobre temas e conceitos sociológicos e antropológicos. Saber perder, saber lutar, questão necessária quando o assunto é um mundo menos violento. A violência é efeito da frustração. Sem refletir sobre perdas, exclusão e humilhação, pouco podemos esperar dos jovens. Geração que aprendeu a exigir e pouco sabe sobre trabalho e conquistas.

Deixar frustrar, suportar que o filho entre em contato com a dor pela perda da ilusão da superioridade. Saber do fracasso é se preparar para a satisfação, é dar conta de assumir o lado obscuro, a lama que habita cada um de nós. Cultivar a frustração é manter a ilusão sobre nós mesmos. Quanto mais frustrados, mais ressentidos e vingativos. Se o desejo advém da falta, negá-la é manter-se na repetição, na mesmice. Enfrentar as próprias mazelas, se implicando e se responsabilizando pelo fracasso, é transformação, ação sobre o sentimento.

Como enfrentar a dor se não paramos o caminhão? É na boleia, no ir e vir da vida, que a compreensão se processa. Ao nos proteger da raiva de se saber pior, mais feio ou menos poderoso, algo tem que se romper e abrir espaço para bons sentimentos. Perdão, tolerância, compreensão. A vingança, o desejo de fazer o mal é a incapacidade de estabelecer contato consigo e com os outros. Quando vivemos afastados de nosso âmago – lugar onde jorra emoção –, nos privamos de esperança. Como lutar por sentido e se extasiar pela alegria da conquista? Viver a secura do mundo, desidratado e pouco recompensado por práticas afetivas consistentes, é cunhar loucura. Devastação. No deserto, as almas indigentes de sentido denunciam a descrença no futuro. Atos descabidos e enlouquecidos. O excesso ou a falta de esperança os condenam ao tédio, enfado – pouco há a desejar. Violência e vingança são apelos ao limite, o grito de socorro pela irrelevância da vida, quando tudo é permitido. Seres deformados pela promessa de prazer eterno. Covardia é pecado difícil de ser perdoado, uma vez que não há vida humana sem passar pela experiência da dor. Saber viver é saber conviver com a falta. Ser onde não tenho, eis a questão.


Inez Lemos é psicanalista. E-mail: inezlemoss@gmail.com.

domingo, 19 de janeiro de 2014

CARIOCAS SÃO BACANAS

CL Gente Boa 
O Globo 19/01/2014

Filme exalta a felicidade de quem nasceu no Rio ou escolheu a cidade para morar, apesar de seus problemas 


Um carinho na cidade. É
isso que faz o documentário
“Carioca —Os caras e as caras”, de Libero
Saporetti, que tem pré-estreia
marcada para terça-feira, no
Espaço Itaú de Cinema.

O filme é uma declaração de
amor ao Rio, com depoimentos
de gente daqui e de quem
adotou a cidade e acabou se
apaixonando por ela.

Foi o caso do francês Rolland
Villard e também do austríaco
Hans Donner. “Na Europa não
sabem o que é felicidade”, diz
Donner, na tela. “Quando viajo,
tenho pena deles: não sabem o
que é feijoada, o que é ter a
Mangueira no fim de semana”,
completa a cantora Alcione,
maranhense que adotou o Rio
como morada há 46 anos.

Libero Saporetti, dono da ideia
junto com Álvaro Rodrigues,
explica que quis “mostrar a
história dos habitantes sem intermediários”.
O filme foi produzido
pela Diretoria Cinematográfica,
numa parceria com
o canal GNT.


O cenário é uma beleza
Uma megaestrutura com quase 20
metros de altura — como uma
passarela, com os carros trafegando
embaixo — vai ser construída pela
prefeitura na Avenida Atlântica para
abrigar os estúdios de TV que irão
transmitir os jogos da Copa do
Mundo. Os estúdios, claro, querem
aproveitar a vista da praia como pano
de fundo de suas transmissões.

Segue a história
Com dois andares, a passarela, na
altura da Rua Joaquim Nabuco, vai
custar R$ 3,85 milhões. A licitação será
no mês que vem, e a empresa escolhida
terá 30 dias para tirar a estrutura do
papel. Depois da Copa, terá outros 30
dias para desmontar tudo.

Vem coisa ótima aí
Martinho da Vila vai um gravar um
disco só com sambas-enredos inéditos
que compôs para a Vila Isabel. Sai pela
Biscoito Fino ainda neste ano.

Um teto que cai
O temporal de quinta-feira fez estrago
no Rio Design Barra. Parte do teto da
Fiametta desabou às 19h30m, quando a
casa estava cheia — por sorte, o reboco
caiu sobre uma mesa vazia.

 O outro lado
Val Santos, chef executiva da Fiametta,
diz que a varanda do restaurante, onde
caiu parte do teto, é responsabilidade
do shopping. “Tivemos um enorme
prejuízo e muito desconforto com os
clientes. Agora queremos ser
ressarcidos pela administração”, diz.

Como na vida real
A peça “Edypop”, que faz um
cruzamento do mito de Édipo com
fatos dos dias de hoje, incluiu um
diálogo atualíssimo. Quando o Rei
Laio é confrontado pela Esfinge, ela
diz: “O que você tem para me dar?”.
E ele: “Contratos sem licitação,
helicóptero, minha casa em Angra...”.
A plateia quase morre de rir.

 Meu escritório é na praia
 A relação do cantor e compositor Leo
Tomassini com o Arpoador é tão forte
que ele batizou seu disco recente com o
nome daquele trecho da praia. “É a
minha casa”, diz. Outra citação à área é a
música “Elizabeth”, numa referência à
Rua Rainha Elizabeth, que liga o Posto
Seis ao Posto Oito. Caetano Veloso e o
violonista Guinga participam do CD.

Chegou a hora de reagir
Cansado dos preços indecentes da
cidade, o estilista Carlos Tufvesson
propõe uma reação: “Viu alguma coisa
absurda, não compre. Enquanto
continuarem a pagar, o preço continua a
subir”, diz. Tufvesson sugere a criação de
um grupo de fiscais, “como os do
Sarney, lembra?”. A ideia é que eles
denunciem os preços pelas redes
sociais, como as páginas “Não pago
preço absurdo” e “Rio $urreal”.

 Performance cheia de luz
Artista plástico e acrobata, João
Penoni vai usar uma roupa coberta
por lâmpadas de LED na performance
“Lúmen”, na Casa Daros, no dia 7. A
ideia é transformar seu corpo em uma
escultura luminosa e em movimento,
dialogando, digamos assim, com a
obras da exposição “Le Parc Lumière”,
todas cinéticas e luminosas.

 Eu amo as galinhas
Maitê Proença teve que lidar, outro dia,
com uma espectadora que, da plateia,
praticamente contracenava com o
elenco numa sessão da peça “À beira do
abismo me cresceram asas”. Assim que
a personagem de Maitê disse “há quem
ache estranho amar galinhas...”, a
mulher, na segunda fila, retrucou: “Eu
não!”, e em seguida... cacarejou.

Segue a história
Quando outro personagem falou “se a
moça for boa de conversa não vai ser
boa de cama”, a mesma espectadora
emendou: “Ihhhh, eu sou ótima!”.

‘Deixei rolar’
A moça seguiu nesta pegada por toda a
peça, dando gritos e aplausos fora de
hora. “Várias vezes eu pensei em parar
e tentar contê-la, mas preferi deixar
rolar”, diz Maitê. Ao final, na fila de
cumprimentos, a espectadora ainda
perguntou à atriz: “Atrapalhei vocês?
Desculpe, mas me contive ao máximo.”

Aos famosos, tudo
Mal estar no consultório de Heloisa
Rocha, a médica ortomolecular das
celebridades. Uma paciente não
famosa que esperava a consulta, já
com duas horas de atraso, viu a
secretária passar a atriz Guilhermina
Guinle na sua frente. “Fui embora
para nunca mais voltar”, diz a
ex-paciente da doutora.

 Não vai ter área VIP
Produtora de eventos internacionais
de música eletrônica — como o Global
Gathering Festival e Love Saves The
Day —, a inglesa Zeina Radd tem
circulado pela cidade em busca de
pessoas “com uma vibe positiva”. Elas
serão as convidadas especiais da festa
“More love”, no sábado, na Estação
Leopoldina. Zeina já foi ao Viaduto de
Madureira, Baixo Gávea, praia de
Ipanema, Lapa e Vidigal. Gostou da
vibe do pessoal nesses lugares

Gosto de vitória - Helena Celestino

Snowden teve uma estrondosa vitória, Dilma e Angela Merkel também venceram. O pedido de desculpas exigido pela presidente brasileira chegou com mais de quatro meses de atraso, mas veio diante das câmeras do mundo, sexta-feira, no mais do que anunciado discurso de Obama sobre as mudanças no megalomaníaco programa de espionagem dos EUA. Não sem o toque de arrogância agora adicionado à narrativa do presidente sobre seu país; ao anunciar que não grampearia mais os telefones de chefes de Estado estrangeiros, com um sorrisinho, avisou que não pediria desculpas pela maior competência das agências americanas de Inteligência, ao fazer o mesmo trabalho de informação de todos os outros países do mundo. Faltou agradecer ao ex-técnic da Agência de Segurança Nacional o download de 1,7 milhão de documentos que revelaram o desvio totalitarista do Estado americano e obrigaram o governo a reconhecer “o potencial” da NSA para abusos e desrespeitos às liberdades civis.

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sábado, 18 de janeiro de 2014

Um papo sobre polêmicas - Antonio Risério

 A Tarde/BA  18/01/2014

 Antonio Risério
Escritor
ariserio@terra.com.br


 Aprendi a retórica
da polêmica com
Marx, Trotski,
Oswald de Andrade,
Glauber, Lennon e
Caetano. E nenhum
deles usava luva
de pelica. Partiam
para o tapa na cara
e o soco no fígado


A Bahia é engraçada. A grossura grassa para todos os lados, a agressividade explode em engarrafamentos e mercados, a violência encurrala a classe média, etc. Mas o único espaço com relação ao qual vejo as pessoas se mostrarem mais melindrosas é no campo das polêmicas políticas e culturais. Não na comunidade geral dos leitores e dos que pensam isso aqui, bem entendido. Mas, estritamente, em parte do meio jornalístico. Tendo a acreditar que é ignorância, na maioria dos casos. Em outros, predomina a hipocrisia.

Aprendi a retórica da polêmica, basicamente, com Marx, Trotski, Oswald de Andrade, Glauber, Lennon e Caetano. E nenhum deles usava luva de pelica. Partiam para o tapa na cara e o soco no fígado. Marx era um tanque de guerra. Xingava com a fúria de um profeta hebraico. Mesmo Engels, que era rico e mais delicado do que Marx, nunca foi educadinho com adversários. Me lembro de seu ataque a um avô de Otilia Assing. Ele entrou em camp chamando o sujeito de “canalha covarde”. E dizendo por que ele merecia o tratamento. Ainda no campo comunista, leiam as porradas (injustas) de Trotski em Kautsky. E Trotski era um intelectual chique e irônico, leitor de Bernard Shaw, apreciador crítico da vanguarda estética russa.

Parece que a turma, hoje, não conhece nada disso. Quando mando ver numa polêmica, dando uma porretada em alguém, o que ouço é um coro de mocinhas jornalísticas (de todos os sexos) assustadas: para que tanta violência? E a verdade é que, embora dê minhas porradas não mostro metade da virulência de Marx-Trotski-Lênin. E isso para não falar, no campo da política brasileira, em mestres do desmonte agressivo, de Lacerda a Brizola, que chamou Collor de “filhote da ditadura” e Antonio Carlos de “canalha”.

Até Mário Kertész me criticou, quando dei umas bordoadas em Nelson Pelegrino. E aí já acho hipocrisia. Como Pelegrino, em determinado momento e log para Kertész, se tornou intocável? Não sei. O fato é que Mário, num programa em sua rádio, reclamou de minha “agressividade”. Logo Mário, que desanca deus-e-o-mundo em suas falas radiofônicas, resolveu posar de ex-aluna de Domitila Garrido na Socila? Mas Mário é apenas um exemplo. Nossos jornalistas hoje, pelo que vejo, censurariam Gregório de Mattos. Afinal, Gregório dirigiu-se, a um governador-geral gay que tivemos, com a pergunta: “Mandou-vos el-rei acaso desgovernar os quadris?”.

Deixei para os mais jovens o quarteto Oswald-Glauber-Lennon-Caetano. Porque também jornalistas mais jovens, embora insultados de tudo quanto é jeito, parecem não querer mais se indignar, nem bater de volta. Estão todos virando uns fresquinhos de pulseiras coloridas, cachinhos e punhos rendados (o que não quer dizer que sejam gays, homossexuais; não: um homossexual altivo e culto como Vivaldo da Costa Lima não ouvia manifestações de estupidez e desinformação). É muito bom mocismo para o meu gosto. E a verdade é que não consigo confiar em quem faz o tempo todo o gênero de bom moço. Nelson Rodrigues já nos alertava contra isso.


Oswald de Andrade, diante de peripécias de uma certa senhora, não vacilou: referiu-se a ela como “menopáusica velhota de vermelho” Glauber era um tremendo barraqueiro, distribuindo pontapés merecidos nos medíocres que tentavam asfixiar suas leituras e projetos. Caetano e Lennon nunca negaram a palavra certa no lugar certo, chamando aos desinformados de desinformados, aos ignorantes de ignorantes, aos imbecis de imbecis e aos burros de burros.


Quando foi vaiado e agredido no show Araçá Azul, aqui na Concha Acústica, Caetano caminhou até à frente do palco, olhou a plateia de uma ponta a outra e fuzilou: “vão à puta que pariu – e não tem mais porra nenhuma!”. E é assim mesmo. Querem discutir, vamos; idiotice para cima de mim, não. Impossível não se indignar coma estupidez – principalmente, quando é boçal. A menos que a gente se lembre sempre do velho Ezra Pound, qu dizia que devemos ser eternamente gratos à burrice, porque só ela é capaz de nos dar uma ideia aproximada do que seja o infinito.

Poesia atônita - José Castello

O Globo 18/01/2014 

A POESIA DE MANOEL DE BARROS ESTÁ INTERESSADA NAS VERDADES PROFUNDAS, QUE NÃO COSTUMAM TER LÓGICA

Tenho comigo a nova edição da
“Poesia completa”, de Manoel de
Barros (Leya). Ela chega ao mercado
trazendo um poema inédito,
“A turma”, de 2013, e acompanhada
de um box de luxo batizado A
Biblioteca de Manoel, com todos os seus 18 livros
individuais. É uma boa oportunidade para
refletir a respeito de um estigma que pesa sobre
Manoel e sua poesia: o de que ele é um poeta
que só se repete e, mais ainda, de que confunde
poesia com jogo infantil.

O interessante é que as duas restrições não deixam
de ser verdadeiras. A poesia de Manoel de
Barros tem, de fato, uma marca inconfundível
que se derrama sobre toda a obra e que podemos
chamar, imitando-o, de “manoelês archaico”.
Seus versos são inconfundíveis — assim como é
inconfundível uma imagem do Monte Everest, da
Baía de Guanabara, ou do Grand Canyon. Há
uma marca original — um timbre — que não permite
que ninguém dela se aposse, ou imite, sem
cair na desgraça da cópia fraudulenta. Algo que
vem do fundamento, que é o próprio fundamento,
em uma poesia que não tem pudor algum em
(mesmo elegante e doce) se desnudar.

Mas Manoel não escreve para copiar a natureza,
e sim para reinventá-la. Seu poema inédito,
“A turma”, foi incorporado ao fecho de um livro
antigo, os “Escritos em verbal de ave”, que ele
apresenta como uma “desbiografia” de seu amigo
Bernardo. O poeta não se interessa nem pelo
natural, nem pelo verdadeiro. Está mais empenhado
em distorcer essas duas noções, ultrapassando-
as para que, enfim, a invenção se imponha
como única norma. “Videntes/ não ocupam
o olho/ para ver — mas para transver”, ele nos
diz em um poema antigo.

No inédito “A turma”, Manoel faz uma pergunta
insistente a respeito do ato poético, que sintetiza
assim: “Ele queria mudar a Natureza?” E
responde de modo veemente: “Mas o que nós
queríamos é que a nossa/ palavra poemasse”.
Arrancar das palavras toda relação de utilidade,
todo conteúdo, todo significado. Ficar com a palavra
pura — como um objeto primário. Para, aí sim,
colocá-la em outro lugar, inverter sua posição, experimentar
novos usos. “A gente queria encontrar
a raiz das/ palavras”, escreve. Valorizar o mal comportamento,
obedecer às desordens infantis; em
vez de imitar a natureza, “poemar”, o que é uma
maneira de revirá-la em busca de seu fundo vazio.

Daí da lista de “desobjetos” de
Bernardo constarem coisas como
um “martelo de pregar
água”, um “guindaste de levantar
vento” e um “alicate cremoso”.
Para que servem? Para nada. O
nada — na estética radical de
Manoel — é a matéria da poesia.
Gosta de lembrar do francês
Gustave Flaubert que, numa
carta de 1852, disse que gostaria
de fazer um livro sobre nada.
Mas o nada de Flaubert ainda
não é o nada de Manoel. “Ele queria o livro que
não tem quase tema e se sustenta pelo estilo”, o
poeta nos lembra. Já o seu nada é diferente: “O nada
de meu livro é nada mesmo. (...) O que eu queria
era fazer brinquedos com as palavras. Fazer
coisas desúteis. O nada mesmo”.

Tal atitude pode parecer ora soberba, ora desumana.
Contudo, a delicadeza de Manoel é indiscutível.
E, por detrás de seus jogos verbais, é o homem
com seu grande vazio que se ergue e se presentifica.
Releio “A turma”: é impressionante tanta lucidez infantil
em um homem de idade tão avançada. “Nasci
para administrar o à toa, o em vão, o inútil”, escreveu
certa vez. Será Manoel indiferente aos significados,
ou atento à criação de novos significados?
Estará Manoel só brincando ou,
ao contrário, jogando um jogo
mortal que só adultos ousados se
permitem experimentar?

É uma poesia indiferente à lógica,
e interessada nas verdades
profundas, que não costumam
ter lógica alguma. É um homem
que mistura as espécies naturais
— quando fala, por exemplo,
que o dia está “frondoso em borboletas”.
Não se interessa pela
verdade, mas pelo que ela esconde
de invenção e de provocação. “Poesia é a
infância da língua”, já escreveu também. Poesia da
origem, seus versos apontam para a origem da poesia.
Que começa como um sopro, um tombo, um
engano. Que não tem lugar ou hora para nascer,
precisando só de um poeta que esteja disposto a
lhe oferecer o corpo.

Sua poesia mistura pertencimentos: as palavras
gorjeiam (mas não são os pássaros?). A ordem da
língua é quebrada: elas não gorjeiam “para ele”,
mas “nele” — “elas me gorjeiam”, escreve. À entrada
de seu grande livro, anuncia ainda que tem
Aristóteles como mestre e que se baseia em seus
“impossíveis verossímeis”. Em resumo: Manoel de
Barros faz poesia para inventar o impossível. E,
com isso, alarga o mundo, repuxa as fronteiras do
humano, transforma a alma em elástico. Em vez
da coisificação existencialista do mundo, na poesia
de Manoel são as coisas que falam. A cada verso,
afirma sua diferença e sua solidão, mostrando
o poeta como um menino solitário. “No recreio
havia um menino que não brincava/ com outros
meninos/ O padre teve um brilho de descobrimento
nos olhos/ — POETA!”.

É como diz no “Livro sobre nada”: “O menino de
ontem me plange”. Menino que tem outra versão a
respeito da verdade: “Tudo o que não invento é
falso”. Menino e poeta que, portanto, incomodam
com sua solidão radical, excluindo-se dos grupos
poéticos, das escolas e dos cânones. Excluindo-se
do sensato e do previsível. Não há outra maneira
de ler Manoel de Barros que não seja entregandose
completamente — sem ressalvas, sem suspeitas,
sem interrogações — ao magma de seus poemas.
É preciso “ser” Manoel de Barros para ler Manoel
de Barros. Colocar-se neste lugar maravilhoso
em que a palavra se livra de toda incumbência e
se torna só um jogo. Isso assusta. Isso não parece
poesia. Isso incomoda nossa necessidade de significações
e de explicações. Isso nos torna leves — livres
do peso do mundo podemos enfim, como as
crianças, nos limitar a jogar com ele.

Um verso de Manoel resume: “Com pedaços
de mim eu monto um ser atônito”. Um ser que
prefere as linhas tortas, como Deus. Menino, ele
sonhava em ter uma perna mais curta, para que
todos o olhassem. Não teve a perna mais curta,
teve a poesia. Uns o olham de banda. Outros, a
maioria, se ilumina. Todos o olham. Parece loucura:
“Trabalho arduamente para fazer o desnecessário”,
Manoel nos diz.

domingo, 12 de janeiro de 2014

O CHARME DA FAVELA Uma Beverly Hills em pleno Alemão

O Globo 12/01/2014

Área valorizada no complexo tem bistrô e salão de beleza

LUDMILLA DE LIMA
ludmilla.lima@oglobo.com.br

Corriam os anos 90 e as diferenças socio econômicas do Complexo do Alemão foram parar no campo de pelada da Travessa Yucatan. A turma que morava no alto do complexo, onde tudo sempre foi mais precário, zombava da galera da parte baixa, onde era possível chegar de carro até a porta de casa e as moradias tinham reboco. Para o time do alto, ali era mais que Leblon: era a “Beverly Hills” do Alemão, local dos playboys da comunidade. Assim surgiu o apelido do antigo loteamento Jardim Guadalajara, hoje loteamento da Nova Brasília, considerado o ponto mais chique do complexo.

Após a pacificação, ganhou bistrô com cervejas importadas, salão de beleza e casa de massas. Há diferença entre as favelas do Alemão propriamente ditas e o loteamento, cujas ruas receberam nomes mexicanos depois da Copa do Mundo de 86, no México. Mas nessa Beverly Hills não há mansões e celebridades: o local é habitado pela classe média do complexo, muitos moradores antigos, de famílias que chegaram de outros estados na década de 70.

— Quando os meninos do alto perdiam os jogos, começavam com o apelido. Os de baixo eram os playboyzinhos. Ao contrário dos meninos do alto, tinham várias blusas, não precisavam pegar com o irmão a camisa da escola. Mas muitos, das duas partes, se sentiam ofendidos com o apelido. Achavam que criava uma separação na favela — conta a produtora cultural Marluce Souza, de 32 anos, que trabalha com turismo na comunidade.

Ela lembra que, quando era criança, houve uma reunião na associação de moradores para tentar pôr fim à expressão Beverly Hills.

— Os de cima tinham uma rixa porque a parte baixa era a área nobre. Quem era do loteamento era playboy, mas não tinha nada a ver. Era tudo peão — conta Alexandre Cardoso, funcionário da Secretaria municipal de Habitação.

A área mais nobre do Alemão consiste nas Rua Guadalajara (antiga rua A), Travessa Mexicali (antiga B), Travessa Yucatan (antiga C) e outras cinco pequenas ruas e travessas, onde parecem estar as casas mais bonitas da comunidade. Em termos de limpeza, as ruas não diferem muito das da Zona Sul. Não se vê esgoto correndo a céu aberto nem residências somente no tijolo.

A costureira aposentada Marly Isaura Alves, de 55 anos, conta que sua casa, na Travessa Morelos, com fachada de pedra e varandão, foi comprada por R$ 50 mil:

— Hoje em dia, não se vende por menos de R$ 200 mil.

Na Rua Jalisco, onde fica o já famoso bistrô Estação R&R, com mais de 150 marcas de cerveja de todo o mundo, está também o salão “Beleza em Família”. Decorado com pufes de zebrinha, o espaço atrai a mulherada da Beverly Hills, que paga R$ 20 pelo corte.

sábado, 11 de janeiro de 2014

A inconstância do mundo - José Castello

O Globo 11/01/2014

NAS HISTÓRIAS DE LUIZ VILELA A REALIDADE SURGE CHEIA DE INVERSÕES BRUSCAS E DE DESTINOS INESPERADOS

O mundo humano é maleável e cheio de surpresas. Muitos golpes são desferidos em suas brechas. Muito do que parece ser não é. A duplicidade traiçoeira da existência — que é cheia de sustos e de bruscas revelações — é o tema central de “Você verá”, novo livro de contos do mineiro Luiz Vilela (Record). Assim é a vida, por exemplo, de Astrogildo — o Bem, como é mais conhecido —, um desentupidor de privadas que, como todos nós, vive às turras com as reviravoltas do real. Que fazer! Resta a Bem, como se boiasse em um imenso mar negro, se deixar levar. Ser arrastado pelas rasteiras injustas do mundo. Aceitá-las não só como parte essencial, mas até como um benefício da existência. Ele é o protagonista do conto “O Bem”, um dos mais inspirados do livro.

Sua história é narrada por Lauro, que na verdade não se chama Lauro, mas Stanislaw. Simplificaram seu nome para “Lau”. Daí para Lauro foi só um pulo na vida do advogado. Bem lhe presta um serviço, é competente e cobra barato. A amizade surge. Bem tem um terceiro nome, Astro, como a mulher o chama. Nomes deslizam de um lado para outro do relato, indicando a fragilidade do Eu. Ele e Lauro passam a conversar com frequência por telefone. Nesses longos diálogos, cheios de quebras e desvios, Bem está sempre a chorar suas mágoas. Lauro não apenas o suporta: por contraste, sente-se melhor quando fala com o amigo. Envergonha-se do que sente e promete a si mesmo que nunca mais ligará para Bem. Mas, dando uma rasteira em si mesmo, duas semanas depois volta a fazê-lo.

Lauro — que tem um terceiro nome, Stan, tirado de Stanislaw; nomes sob nomes, identidades empilhadas — ouve um dia as agruras de Bem com seu vizinho, Tonhão, um sujeito violento, que anda armado e o enche de ameaças. Pensa até em se mudar para fugir de Tonhão, mas não consegue fazer isso. Um dia, acha que ganhou na Mega-Sena, mas não ganhou — ouviu errado os números no rádio. Já havia até comemorado com a mulher que, ao descobrir a verdade, lhe dá uma vassourada. Cai, bate com a cabeça, tem um sangramento forte, e é Tonhão quem o salva, levando- o a um pronto-socorro. De onde menos poderia esperar que viesse sua sorte grande, é de lá que ela vem. O melhor, muitas vezes, se revela o pior. O melhor sai do pior. Vá se entender o mundo em que vivemos.

A realidade, nas mãos hábeis de Luiz Vilela, é feita de uma matéria inconstante, que está sempre a se transfigurar e a tomar formas surpreendentes. Seus contos são escritos em diálogos secos, substantivos, que quase chegamos a ouvir em voz alta, tal a nitidez e a vivacidade das frases. Vilela é um mestre na arte do diálogo. Em “O que cada um disse”, um homem de bem comete um crime monstruoso. Sua história é narrada por uma série caótica de rápidos depoimentos dados por testemunhas, vizinhos, amigos, a um repórter. “A gente não conhece ninguém: essa é a conclusão que eu tiro”, uma das entrevistadas conclui. “Às vezes, nem a própria pessoa se conhece. Somos um bando de desconhecidos — uns para os outros e cada um para si mesmo”. As surpresas que o mundo nos apronta não vêm apenas de fora, mas de dentro de nós mesmos. Nós somos essas surpresas.

“O ser humano é como uma floresta: você olha de fora, e a floresta é aquela maravilha; mas você entra, e lá dentro você dá com onças, cobras, escorpiões”. Um dos temas prediletos de Vilela é, assim, a ilusão. A ilusão e seu desmascaramento, que é sempre doloroso. A mesma depoente continua: “Por fora uma coisa amável, por dentro uma coisa temível. Ou, como dizia a cartilha na escola, nos meus tempos de menina: por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento”. Existir é decifrar a existência. Nunca se chega a uma conclusão final, as surpresas saem umas de dentro das outras, em uma série interminável. E isso é viver.

É o que acontece no imprevisível “Noite feliz”. Nada mais previsível, em geral, que as grandes datas. O Natal, por exemplo. Mas Vilela consegue transformar a santa data em um inferno. Aristotelina — segundo nome: Lina — recebe os parentes mais próximos para uma ceia de Natal. Eles chegam desconfiados: sabem que algo estranho os espera nas próximas horas, embora não possam imaginar o que será. “Há meses que eu venho planejando esta noite; pensam que eu vou desistir agora? Nunca.” Durante longo tempo, em uma peregrinação paciente de posto a posto de gasolina, Lina armazenou combustível em garrafas. “Chega. É hora. A meianoite se aproxima. Vamos. Noite feliz, noite feliz, Senhor...” A estranha ceia é armada: “Uma garrafa aqui: assim. Outra aqui... Agora esta... Mais esta... E esta... Pronto”. A tragédia se consuma na noite
em que parece menos provável.

Um dos principais elementos da escrita de Vilela é o pessimismo — e isso se expressa com força no relato que empresta seu título ao livro. Não é preciso dizer muito — o que se esconde não está no conto, mas fora dele. Um jovem chega à rodoviária de Brasília. Estamos em abril de 1963, a um ano do golpe militar. Ainda falta um longo tempo para a partida de seu ônibus e ele decide tomar um café. O dono do bar, um nortista sessentão, é um homem deslumbrado com a cidade em que escolheu viver. “O futuro está aqui”, ele diz. “Um novo país está nascendo nesta cidade”. Mas Vilela sabe o que se esconde sob seu entusiasmo. “Eu talvez não verei; mas você, você, que é muito mais novo do que eu, você verá”. Na esperança do homem aparece, de ponta cabeça, a grande noite política que se aproxima. Dizendo de outra maneira: a esperança é o próprio arauto da desesperança.

Nas histórias de Vilela a realidade surge cheia de inversões bruscas e de destinos inesperados. É preciso estar atento para ler a realidade nas entrelinhas, ou a verdade nos escapa. Função da literatura: desmascarar a dupla condição do real, o paradoxo contínuo que o faz andar. Como observou Walnice Galvão, Vilela nos fala “da ilusão de que tudo poderia ser de outra maneira”. Um mundo duplicado, em que esperança e realidade se entrelaçam em uma espécie de dança fatal. Narrativas secas, diretas, sem adjetivos, sem descrições inúteis, sem divagações prolixas, que remexem diretamente no estranho e inconstante coração do homem.

Obama contraria Utah e defende gays

 O Globo 11/01/2014


Governo federal vai reconhecer união do mesmo sexo apesar de veto estadual

-WASHINGTON- Depois de a Justiça americana ter autorizado e depois proibido novamente o casamento entre pessoas do mesmo sexo no estado de Utah, o governo federal decidiu comprar publicamente uma briga com o poder estadual na questão. O Departamento de Justiça anunciou ontem que os 1.400 casais que tiveram tempo de se unir formalmente terão seus direitos federais garantidos, indo de encontro à vontade do estado, que conseguiu barrar o casamento gay na Suprema Corte na segunda-feira.

Na quarta, o governador de Utah, o republicano Gary Herbert, declarou que o estado não reconheceria por enquanto os casamentos homossexuais celebrados depois que um juiz de uma corte federal no estado declarou como inconstitucional a proibição da união gay, no dia 20 de dezembro. A decisão da Suprema Corte “congelou” a decisão da instância inferior, e agora a questão passará por uma corte federal de apelações no Colorado. Em Washington, o procurador-geral americano, Eric Holder, garantiu o respaldo do Executivo federal aos casais.

— Estes casamentos serão reconhecidos como legítimos para todos os benefícios federais nos mesmos termos que outros casamentos do mesmo sexo — declarou. — Estas famílias não devem ser confrontadas com a incerteza enquanto seu status continua pendente.

O governo de Utah não havia comentado a decisão federal até ontem à noite. A Organização Nacional pelo Casamento, ONG contrária ao casamento gay, condenou a atitude de Holder e considerou- a uma intromissão em assuntos estaduais. Para o presidente da entidade, Brian Brown, a atuação federal foi “ultrajante”.

— É direito dos estados determinar o que é um casamento, e os eleitores de Utah o fizeram — argumentou Brown.


CASAIS COMEMORAM

O Utah seria o 18º dos 50 estados americanos a aprovar o casamento gay caso a Suprema Corte não desse a vitória ao governo local. Por outro lado, a mesma Suprema Corte decidiu em junho passado que casais do mesmo sexo têm direito a serem tratados da mesma forma que os casais heterossexuais sob a lei federal.

Apesar de ainda não terem o reconhecimento estadual, casais gays de Utah celebraram a posição do governo federal.

— É uma validação — disse Angela Hinton, que se casou com Michele Poast em 23 de dezembro. — Temos o reconhecimento oficial de que somos pais, esposas, cônjuges.

Na capital americana, o grupo de defesa dos direitos dos gays Human Rights Campaign elogiou a atuação de Holder.
— Este é só o começo da luta, e o trabalho continua até que haja igualdade de casamento no Utah e em todos os 50 estados americanos — disse o presidente do grupo, Chad Griffin.

Tem aquele livro com a capa verde? - MARCOS DIAS

A Tarde /BA 11/01/2014

Porque não há mais livrarias no Centro, porque não há como andar em calçadas esburacadas, porque a insegurança não está nas entrelinhas e porque um centro de cultura é apenas promessa de gestores públicos, as lojas de redes de livrarias acabam sendo, para muitos, referências de espaços culturais.

Localizadas em shopping centers, templos de consumo para o movediço vazio da subjetividade contemporânea, muitas delas têm se tornado pontos de encontro.

Mas nada que se compare ao que foram casas como a Civilização Brasileira da rua Chile, ou a Livraria Progresso,na Praça da Sé, em meados do século passado. Eram ali que literatos, intelectuais, jornalistas e estudantes se encontravam, sem precisar marcar encontros.

E há pouco mais de uma década, ainda respiravam a Grandes Autores, no Itaigara, e a Sabor dos Saberes, no Pelourinho. Por esses locais, muitos tiveram acesso ao melhor da literatura brasileira e estrangeira— numa época em que e-books seriam como alucinações.

Mas hoje é possível, para quem quiser, passar o dia nas lojas das grandes redes, que também vendem CDs, blue-ray, e-readers e têm espaços para eventos e espetáculos. Ar-condicionado, cafés e ambientação aconchegante podem fidelizar leitores de todos os gêneros.

As lojas costumam ter, logo à entrada, os livros mais vendidos e os lançamentos. Os mais criativos, de vez em quando colocam produtos baianos ou sobre a Bahia separados.

A foto de acarajés na capa do livro mais recente de Raul Lody, Bahia Bem Temperada, por exemplo, faz um pai dizer ao seu filho de 2 anos: “Quer um livro de acarajé? Hein? Você pode comer esse livrinho”. E ele mesmo ri da brincadeira. A criança parece mais preocupada em acompanhar os passos largos do seu herói.

Mas as seções infantis, que expressam a crescente demanda para o segmento, é que sabem o que essa piadinha pode surtir – ou fazer surtar.

Mostruário

Não raro as crianças rasgam ou quebram brinquedos e aí ... pai, mãe, onde estão vocês?Muitos não pagam pelos danos. Alegam que aquilo é um mostruário. Mas ainda há vovós ou pais que levam seus pimpolhos paraler histórias.

As adolescentes, por sua vez, parecem que estão cansadas com essas histórias de vampiros. Vão ali mesmo para azarar seus pares, alimentadas por leituras, como a regurgitante série de Bella Andre, Se Você Fosse Minha, entre outras, com a chancela de ser Best Seller do New York Times.

A verdade é que o amor (chamemos assim) já os espreita, como acontece a todos, mais cedo ou mais tarde. Adultos, lerão algo para tentar resolver suas crises conjugais.

Mas, por enquanto, podem ter que lidar apenas com os limites sinalizados pelos vendedores para que não mostrem tanto, ou tão explicitamente, como se gostam.

Aquela jovem ali, com dois livros na mão, por exemplo, vive o dilema entre escolher o marketizado Eu Me Chamo Antonio (“Uns plantam, outros colhem, mas onde estão os que cultuam o amor?”), do publicitário Pedro Gabriel, ou o detonante A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. “É o mais romântico dela”, diz a jovem para uma amiga.

Sim, quem quer que tenha dado essa informação a ela deveria ser processado.Mas quem sabe não pode ser um bom desvio e daí ela vai entender, como a própria Clarice já disse, que “a vida dos sentimentos é extremamente burguesa”.

Na seção de música, jovens podem tanto ouvir o que gostam ou, se forem mais relax, tocar o violão que um deles levou. E é aquilo: se deixarem, gravam o clipe da própria banda ali mesmo.Os CDs,DVDs etc. da prateleira simplesmente dizem: é possível, siga o seu sonho.


Para muitos adultos, aliás, o grande sonho é que tudo ali fosse de graça. Há os que ficam por lá lendo horas a fio. Assim como há os que não devolvem os livros às respectivas prateleiras. Outros gostam tanto da leitura que escondem o título numa seção improvável. No dia seguinte, continuam.

Um livreiro, a propósito, me recomenda uma checagem no blog manual pratico de bons modos em livrarias. blogspot.com cheio de histórias, ou melhor, “delírios da freguesia”.

E se alguns reclamam que antes as livrarias havia vendedores mais informados, talvez relativize a opinião se souber que há quem procure títulos como “O Último Voo do Flamengo” (e não O Último Voo do Flamingo, de Mia Couto), ou por “aquele livro com a capa verde”.

Best-sellers

Leitores mais exigentes queixam-se que as tais redes só têm pilhas de best-sellers. Será preciso encomendar o que você quer, dirá um dos atendentes. Um professor ficou irritado nesta semana por que numa delas não encontrou Assassinato de Reputações – Um Crime de Estado, de Romeu Tuma Jr.

A lacuna o fez lembrar que,há não muito, tinha que viajar para o Rio de Janeiro ou São Paulo para comprar livros. “Aqui só colocam livros que vendem rápido”, argumenta.

E pode ter razão: nas redes, como numa sapataria ou centro de telemarketing, também é preciso bater metas.

Mas mesmo nas redes, e com os livros físicos sobretudo, está preservada aquela magia de caminhar entre as estantes e ser surpreendido. Independentemente do gosto do freguês, o design,o texto e uma espécie de radiação emanam daqueles objetos cheios de páginas e fazem crer que aquele livro tem algo a lhe dizer. E eis a felicidade.

Pode ser um livro de um colecionador apaixonado com capas de disco de soul e funk, ou um já muito manuseado livro do pintor George Quaintance. Ou um tesouro numa edição de bolso como O Mal Estar na Civilização, de Freud. É de 1930 e ainda parece uma novidade.

O ideal é que essas redes de livrarias tivessem, realmente, redes. Mas os cafés instalados nesses espaços ajudam a relaxar, a repor as energias e,quem sabe, a trocar uma ideia com amantes de livros. Mas, ora, estão quase todos ligados em seus tablets e smartphones. Então é isto: ali é como um escritório. E os profissionais jogam duro— coma conexão sem fio gratuita da livraria, claro.

Córdoba, Argentina - Luiz Mott

A Tarde/BA 11/01/2014

Luiz Mott
Professor titular de Antropologia da Ufba
luizmott@oi.com.br

Fundada em 1573, a Córdoba argentina
situa-se entre os Andes e o Pampa, 1,3
milhão de habitantes, 700 quilômetros
de Buenos Aires, 350 metros de altitude. Peguei
37 graus neste último dezembro, oscilando
sua temperatura entre menos 7 a 42
graus! É a segunda mais importante cidade
depois de Buenos Aires. Tem voo direto de
São Paulo, três horas de viagem.

A história de Córdoba foi profundamente
marcada pela Companhia de Jesus, que já em
1613 funda sua primeira universidade, dois
séculos antes de nossa pioneira escola de
medicina! O quarteirão jesuíta é Patrimônio
Mundial pela Unesco. Belíssimas igrejas barrocas:
a majestosa Catedral, Santo Domingo,
Merced, San Francisco, museus ricos e interessantíssimos.
Incontáveis galerias de arte
ambientadas em mansões da belle époque.
Serviço de transporte urbano eficiente e barato,
praças ultraacolhedoras, traçado das
ruas em formato de tabuleiro de xadrez com
numeração padronizada. Um belo riozinho
de águas transparentes corta o centro urbano,
todo ele canalizado combelas muretas e pontes
de pedra. A população cordobesa descende
notadamente de espanhóis e italianos,
sendo perceptível, contudo, nos bairros mais
humildes, a presença de muitos “criollos” e
mestiços indígenas, seja remanescentes dos
autóctones mechingones e mapuches, seja de
andinos dos países vizinhos.

Córdoba temcomo antonomásia “la docta”,
a douta, “a que ensina”, abrigando sete universidades,
12 campi, 130 mil acadêmicos, 8
mil docentes, 250 cursos de graduação, 100
institutos de investigação, 25 bibliotecas, 16
museus e observatórios astronômicos. Em
1918 ocorreu aí sua modelar reforma universitária
e a primeira greve estudantil. A
taxa de analfabetismo em maiores de 10 anos
é de 0,8%, (contra 8,7% no Brasil), e 33% dos
cordobeses têm nível secundário completo,
11% a mais que os brasileiros.

Detalhe interessante: só mulheres são aceitas
como motoristas de trólebus em Córdoba.
Uma justa reserva de mercado a ser pleiteada
pelas baianas: condutoras do nosso metrô...

O curral do capeta ou o enigma baiano - JC Teixeira Gomes

A Tarde/BA 11/01/2014

JC Teixeira Gomes
Jornalista, membro da
Academia de Letras da Bahia
jcteixeiragomes@hotmail.com

 A Bahia cedeu a liderança nordestina para Pernambuco e Salvador entrou em crescente declínio, sendo superada em organização e qualidade de vida pela pequenina Aracaju



A partir dos anos 50, tornou-se usual a expressão “enigma baiano” para definir curioso fenômeno: era preciso saber por que uma terra que tinha petróleo, Paulo Afonso e cacau ostentava índices tão alarmantes de atraso econômico. Pinto de Aguiar chegou a escrever um livro, Notas sobre o Enigma Baiano (Salvador, Progresso, 1958), para tentar entender o problema. Assinalou que a Bahia tinha uma economia parasitária, com lideranças empresariais sem iniciativa, mais preocupadas com comércio do que comindustrialização. Esse panorama alterou-se em parte, pois a Bahia continua apresentando alguns dos índices mais desfavoráveis do atraso brasileiro.

Progressivamente, o estado cedeu a liderança nordestina para Pernambuco, isto desde o tempo do domínio espalhafatoso de Antonio Carlos Magalhães. Instituições econômicas fundamentais deixaram terras baianas.

Salvador entrou em crescente declínio, sendo superada em organização e qualidade de vida pela pequenina Aracaju. Foi perdendo toda a riqueza do seu passado histórico. Não soube preservar sequer a reverência a suas datas magnas: o aeroporto da cidade deixou de honrar os heróis do Dois de Julho para homenagear um deputado que nem chegou a governar o estado e tampouco gostava de residir na capital. Essa anômala usurpação permanece intocada.

Recente reportagem de TV mostrou a extensão do atraso do nosso interior, exibindo as carências das populações por causa da falta de água. A calamidade agravou-se pela precariedade do abastecimento com caminhões-tanques, sujos, infectos, disseminando disenteria, vômitos, doenças várias.

Na capital, o último decênio foi de degradação absoluta. A política de liberação dos gabaritos pelo ex-prefeito João Henrique inchou a cidade, enchendo-a de espigões, e ajudando a fazer do trânsito a reedição baiana do inferno. As pessoas chegam hoje a seus locais de trabalho deprimidas e exaustas. O mal permanece inalterado pela ausência de obras.

Gostaria de convidar o prefeito e o governador para um passeio de carro pelas ruas de Salvador, notadamente, nas horas do rush, pelo Iguatemi, Pituba, rua Oswaldo Cruz, na Mariquita, avenida Tancredo Neves, Paralela, tantos outros lugares. Deixe Wagner o seu helicóptero e ACM Neto o seu transporte especial. Vamos de carro, saindo das 16h30 em diante do Salvador Shopping para, através das ruas Amoroso Lima e Almerindo Rehen, alcançarmos a rampa – eu disse rampa, a estreita e precária rampa (para um só automóvel de cada vez) que desemboca na congestionada Tancredo Neves.

Estava eu outro dia naquele local, amargurando uma enorme fila que não se movia, cerca das 18 horas, quando o taxista, irritado e suarento, virou-se para mim e exclamou: “Doutor, isto aqui é o curral do capeta! Todos os dias é este suplício, não consigo sair do lugar, a prefeitura não se mexe, não sei por que não abrem uma alternativa pela rua Frederico Simões, façam algumas coisa, construam um túnel, um elevado!”, vociferou. Concordei, arrasado pelo imobilismo.

Há um slogan oficial muito usado pelo poder em Salvador que diz: “Sorria, você está na Bahia!”. Lembrei-me então do que podem pensar dessas palavras os moradores dos guetos do Nordeste de Amaralina, Curuzu, Pernambués, Pau Miúdo, Calabar, Vale das Muriçocas, San Martin, Calabetão, Iapi, Baixa de Quintas, Nova Brasília, Beiru, Boca do Rio, Mata Escura, Saramandaia, Boiadeiro, Lobato, Massaranduba e tantos outros bolsões de pobreza e miséria, todos residentes em becos e ruas esburacadas, usando os piores ônibus do Brasil, amontoados e sem ar-condicionado. É claro que só podem achar que tal slogan foi criado por um publicitário ou marqueteiro debochado.

Enquanto isto, faltando pão, vamos ao circo! No cenário arrasado da praça Cayru e seu entorno sustentado por vigas de ferro, a prefeitura ampliou o ciclo das festas para quatro dias de Réveillon! Mas, enfim, o mal é nacional. O Brasil é o país do carnaval e este ano será o da copa. Resta saber quando será o da saúde, da educação e da segurança dos cidadãos. E, sobretudo, quando será também o país da decência política.

domingo, 5 de janeiro de 2014

A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR (NO CALOR)



O Globo 05/01/2014

Colunista Convidado DANIELA MERCURY Aos olhos de quem vê

O Globo 05/01/2014

 
“Ainda nos oferecem camas de
solteiro quando fazemos check-in
em hotéis, nos pedem para
preencher formulários como sr.
e sra., noivo e noiva, pai e mãe’’

Em abril deste ano escrevi no meu Instagram: “Malu agora é minha
esposa, minha família, minha inspiração para cantar.” O motivo?
Malu é uma mulher e se eu não a apresentasse como minha esposa,
ela seria tratada como minha empresária, produtora, amiga, ou
qualquer outra coisa, menos esposa. Infelizmente, mesmo depois
da repercussão do meu comunicado e do nosso casamento civil,
muitas pessoas ainda falam com Malu como se ela fosse minha produtora
ou assessora. Imagine se eu não tivesse falado nada?

Eu sou militante social há 18 anos, trabalhando como embaixadora
do Unicef, embaixadora do Instituto Ayrton Senna e no meu próprio
instituto, o Sol da Liberdade. Agora estou mais inserida na luta contra
a homofobia. Por isso, ao relembrar minhas leituras sobre a sexualidade
humana, pensei, obviamente, no tão popular Sigmund Freud.

Há cerca de cem anos, Freud lançou obras importantes que começaram
a desvendar a sexualidade humana. Em seguida, Lacan
reitera e amplia as descobertas, e o mundo começa a compreender
o ser humano. Freud afirmou que a nossa sexualidade é múltipla e
desordenada. Disse que a pulsão sexual humana é orientada pela
diversidade e parcialidade. Ainda afirmou que o que causa a homossexualidade
é o mesmo que causa a bissexualidade e a heterossexualidade:
a escolha inconsciente do objeto de desejo. E que nenhuma
escolha é mais natural que outra. É uma pena que, um século
depois, estejamos discutindo o preconceito contra homossexuais.

Hoje, eu e Malu estamos casadíssimas no civil, fomos capas das
revistas mais lidas do Brasil, participamos de programas de TV e
demos centenas de entrevistas. Mesmo assim, ainda passamos por
situações que demonstram o quanto estamos longe de tratar com
naturalidade um casal de mulheres ou de homens: tentam fingir
que não nos veem, que não somos um casal. Chamo isso de invisibilidade
social. Ainda nos oferecem camas de solteiro quando fazemos
o check-in em hotéis, nos pedem para preencher formulários
como sr. e sra., noivo e noiva, pai e mãe. Homens paqueram
uma ou outra, ou as duas, ignorando que somos casadas. Alguns
ficam nitidamente confusos e constrangidos e olham para o chão
ou desviam o olhar quando eu a apresento como minha esposa.
Mas por quê? Existe algum padrão para “gente”? Freud diz que
não! Por sabermos que há muito o que fazer para naturalizar a relação
homossexual no Brasil e no mundo, eu e Malu aceitamos o
convite pra escrever o livro “Daniela & Malu: Uma história de
amor” (LeYa), onde expomos nossa intimidade, nossos medos e
fragilidades para que desmistifiquem a relação entre duas pessoas
do mesmo sexo. Duas pessoas bem-sucedidas, inteligentes e bonitas,
que sempre quiseram mudar o mundo e descobriram que um
testemunho vale mais do que mil palavras
.


sábado, 4 de janeiro de 2014

Lúcia Rocha. Mãe do cineasta Glauber Rocha

O Globo 04/01/2014

Baiana, ela incentivou a carreira do filho, recebia artistas em sua casa e batalhou para o estabelecimento do Tempo Glauber



Musa. Desde a morte de Glauber, Dona Lúcia Rocha lutou para preservar sua memória


ANDRÉ MIRANDA
andre.miranda@oglobo.com.br

Da sabedoria de seus 85 anos
de vida, o produtor Luiz Carlos
Barreto resume bem o que
uma mãe pode representar
para um filho:

— Eu sempre brinquei com a Dona Lúcia
falando que, para entender o Glauber,
era preciso conhecê-la. Ela foi sua inspiração
para tudo.

“Dona Lúcia" é a maneira carinhosa
com que cineastas — e também escritores,
músicos, outros artistas ou apenas
amigos — se referiam a Lúcia Mendes de
Andrade Rocha, uma baiana nascida em
Vitória da Conquista em 16 de janeiro de
1919. Dona Lúcia teve quatro filhos, sendo
que um deles, muito por incentivo dela
própria, tornou-se simplesmente o
mais celebrado diretor do país, aquele
que ajudou a dar uma expressão brasileira
para o cinema. Mais do que mãe, Dona
Lúcia foi a musa e peça fundamental para
o desenvolvimento da carreira de
Glauber Rocha.

Filho mais velho do casamento de Dona
Lúcia com o caixeiro-viajante Adamastor
Rocha, Glauber foi batizado, por ideia da
mãe, em homenagem ao cientista alemão
Johann Rudolf Glauber, que descobriu o
sulfato de sódio, no século XVII. Mas seu
ofício seria bem diferente. Logo quando
passou para o curso de direito na Universidade
Federal da Bahia, ela deu a ele uma
quantia para que comprasse um carro, mas
Glauber resolveu utilizar o dinheiro para
adquirir uma câmera de cinema. Adamastor
teria ficado aborrecido, só que Dona Lúcia
compreendeu a opção. Era o que o filho
queria fazer desde muito cedo, quando os
amigos o chamavam para jogar bola e ele
preferia ficar em casa debruçado nos livros.

Pouco depois, em 1959, quando Glauber
tinha apenas 20 anos e começou a rodar
“Barravento” (1962), seu primeiro
longa-metragem, Dona Lúcia preparava
as marmitas diárias e levava a comida de
carro para alimentar equipe e elenco. No
longa-metragem seguinte, “Deus e o Diabo
na Terra do Sol”, que completa 50 anos
agora em 2014, Dona Lúcia ajudou a costurar
as roupas usadas pelos atores.
Quando a verba para terminar algum filme
ficava curta, ela remexia nas finanças
da família e ajudava o filho.

Numa entrevista ao GLOBO, há quatro
anos, ela explicou sua motivação em ajudar
o filho: “Eu gosto de todos os filmes do
Glauber. E em todos eu contribuí de alguma
forma. Ele me ligava, contava o que queria
fazer, e eu dava força. Quando a gente bota
um filho no mundo, tem que ajudar”.

Aos poucos, com a fama de Glauber se
espalhando, Dona Lúcia passou não a
cuidar apenas do filho famoso, mas também
de muitos outros artistas que frequentavam
os mesmos círculos e ficaram
amigos de Glauber. Em sua casa na Bahia,
foram recebidos nomes como João Ubaldo
Ribeiro, Sonia Braga, Caetano Veloso,
Jards Macalé e Zelito Viana.

— Ela sempre foi muito presente no cinema
e também nos assuntos brasileiros —
recorda o diretor Nelson Pereira dos Santos.
— E era uma mulher de um nível moral altíssimo,
extremamente correta e carinhosa.
Ela recebia todos nós na casa dela na Bahia,
que era chamada de pensão da Dona Lúcia.

Outro que esteve bem presente na casa
foi Cacá Diegues, para quem Dona Lúcia
foi “a segunda mãe de todos nós”:
— Isso desde a época em que ela morava
na Bahia, antes de vir para o Rio. A casa
dela era aberta para todos nós, quando
éramos muito jovens. Ela teve uma importância
muito grande no cinema.
Quando o Glauber morreu, não só protegeu
a memória do filho, mas também a
do cinema brasileiro.

A morte de Glauber foi um baque para
Dona Lúcia, mas também significou o
início de uma nova luta. Ela já havia perdido
dois outros filhos — Ana Marcelina,
ainda adolescente, de leucemia; e a atriz
Anecy Rocha, em 1977, que caiu no fosso
de um elevador aos 34 anos — quando
Glauber morreu em 22 de agosto de 1981,
vítima de septicemia. Quase que imediatamente
Dona Lúcia passou a reunir todo
o material que encontrava sobre o filho,
um movimento que resultou na fundação
do centro cultural Tempo Glauber, em
Botafogo, no Rio, e que hoje é tocado por
sua filha, Ana Lúcia, e por netos.

— O Tempo Glauber merece mais atenção
do poder público. É um centro espetacular
que recebe visitantes e pesquisadores
de todo o mundo, e que guarda não
só a memória do Glauber, mas muito da
memória do Cinema Novo — diz Luiz
Carlos Barreto.

Parte dessa memória se foi ontem, com
a morte de Dona Lúcia, aos 94 anos. Ela
estava em casa, em Copacabana, quando
teve uma parada cardíaca. O velório foi
realizado no Tempo Glauber, e o enterro
está marcado para hoje, às 14h, no Cemitério
São João Batista. l